quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CRÔNICA SOBRE MULHER

O RESULTADO.

Droga! Era só isso que eu poderia dizer para as minhas burradas. Mil vezes droga! Agora com que cara eu vou chegar a casa da minha mãe e dizer, como quem não quer nada, que estou grávida mais uma vez... Não acredito que pude ser tão estupida. Meu Deus, eu tenho vinte e nove anos e ainda não aprendi a lidar com os homens. São todos uns crápulas, que vêm sempre com as mesmas histórias, querendo conhecer, pegar na mão, dar o primeiro beijo... falar que são “djs” e que querem enriquecer como cantores de “rap”... Convidam a gente para a primeira balada e depois nos levam pra cama... e ainda por cima não querem se preservar... e a burra aqui faz o que eles querem e depois engravida mais uma vez. Que loucura! Como eu vou contar isso para a minha mãe...? Ela vai me esfolar viva! Já estou até vendo a bronca e o sermão... Eu nunca pensei ser mãe de quatro filhos, morar nos fundos da casa da minha mãe, em dois cômodos, e viver da caridade dos outros. Eu sonhava em ser dançarina de rap, ficar famosa e sair do bairro pobre em que moro até hoje. Eu era conhecida por todos como a Super Girl, porque era a mais alta entre amigas, os meus peitos eram grandes, aos doze anos. Era forte também, eu era uma negona arretada como dizia o meu pai, batia em todas as meninas da escola que inventavam de arranjar confusão comigo ou com as minhas amigas. Eu sei que fui mãe muito cedo... aos treze anos... Ah! Minha mãe me teve aos quatorze e nem por isso ficou mal falada.
Eu lembro que, quando eu perdi a minha virgindade, foi com o carinha mais fofo da escola. Ele se gabava de usar o trinta e oito do pai, chegou até a levá-lo para a professora de matemática ver, só pra intimidar a coitada. Se sentia o maior valentão do pedaço, eu gostava dele, me passava segurança. Ele vivia de graça pro meu lado, fazia um chamego gostoso; não resisti, a tentação era grande. Foi na central da ferrovia mesmo que eu me deitei com ele, no chão duro, entre as bitucas de cigarros. O mês todo que fiquei com ele foi bom, mas quando mostrei a ele o resultado do exame de gravidez, que havia feito no posto de saúde perto de casa, e que tinha dado positivo, ele me chamou de cadela... Disse a mesma coisa que quase todos os carinhas falam: “Não é meu sua vadia...” É tão triste a filha da gente crescer perguntando pelo pai e a gente ter que mentir que ele morreu... No começo, eu bem que fiz isso, mas não aguentei; sou sincera, fui logo falando a verdade para ela. Filha minha precisa se acostumar com a realidade logo; minha mãe me ensinou dessa maneira e é assim que eu faço com os meus filhos. Ainda bem que eu tenho pai e eles podem chamá-lo também de pai; assim alivia a dor, a criança se sente menos rejeitada na vida...
Eu não faço corpo mole com a mais velha, não; a boto pra trabalhar mesmo, em casa. Não quero que ela tenha um futuro perdido, com os “neguinhos” do meu bairro...
Quando eu disse pra minha mãe que estava grávida pela segunda vez, olha que isso foi quase dez anos depois de ter a primeira, a minha mãe, pobrezinha, sorriu, pois acreditava que eu iria casar com o meu namorado de então. Fazia o quê? Uns cinco meses que a gente estava juntos? É lógico, que pro tipo de mulher que sou, não aguentei seguir o conselho do meu pai, em não me deitar logo de cara com o caboclo... Mas esse era diferente. Era carinhoso, se preocupava comigo e com a minha filha, ele era tão bom que até comprava lanche para menina, quando a gente saía da balada, de volta pra casa. A gente quis morar junto, mas não estava nada certo ainda. Fiz até uma tatuagem nas costas, em homegagem a ele, economizei todo o dinheirinho, de uma faxina que fazia na casa de uma ricaça, só pra fazer o bendito desenho. Foi um coração flexado, com uns pingos de sangue caindo do lado e dentro tinha o seu nome com a frase “vou te amar pra sempre!”. Meu, o cara ficou louco de amor por mim. Recebi no dia seguinte um buquê de flores; todo mundo da rua veio ver o rapaz da floricultura entregando o buquê. Sou tão boba que chorei na hora de emoção. Também, nunca tinha recebido flores de ninguém, não poderia adivinhar, que o danado fosse fazer uma coisa dessa comigo. Aposto que engravidei naquela noite; foi tão romântico e diferente de tudo que eu já tinha feito em toda a minha vida. Ele me levou para um motel, daqueles que tem a cama redonda e espelho no teto... Ele até pediu bebida pra nós, tomei uma bela cerveja geladinha, só pra molhar a garganta e fiz amor e não sexo, que nem atriz de novela; mandei o bichinho pro espaço. Eu ainda era a Super Girl. Ele dizia que me amava de verdade, que queria constituir uma família, me assumir como mulher dele. É, mas felicidade de preto dura pouco: quando fomos completar sete meses de namoro, ele foi preso por tráfico de drogas; a rua toda lotou, para vê-lo entrar no camburão da polícia. Faltava tão pouco para gente ir morar juntos... Mesmo preso, ele quis assumir a minha gravidez, mas eu não permiti. Minha mãe é cristã e me ensinou a ser cristã também; ela vive dizendo pra mim: “Fia, é melhor ser pobre com honra do que ricaço ordinário...” Sou devota de Nossa Senhora Aparecida, não podia ser conivente com o banditismo dele. Quando a criança nasceu eu não quis que ele registrasse a menina. Hoje eu me arrependo e muito, a pior coisa que tem é mostrar a certidão de nascimento do filho da gente para os outros e eles verem quase uma folha em branco...
Quando engravidei pela terceira vez, foi com o mesmo carinha, pai da minha primeira filha. Ele estava mais maduro, experiente, já não era aquele garoto que queria peitar todo mundo; estava mudado... Tinha ido morar no Rio de Janeiro, na casa de uma tia; voltou de lá todo transformado, veio me procurar num baile de forró, me pedindo desculpas, querendo que eu desse uma nova change a ele. Dessa vez assumiria a sua filha e a outra. E o que uma mulher carente não faz? Aceitei, é lógico. O filho da mãe era bonito, charmoso e ainda mais agora todo musculoso. Reatei o nomoro com ele e a gente ficou junto quase um ano. Ele começou a trabalhar como pedreiro e a por as coisas em casa. Nessa época, eu estava precisando mesmo, não podia me fazer de rogada... Quando lhe mostrei o resultado do exame de gravidez, ele demonstrou felicidade. Mas passado um mês, desapareceu sem deixar paradeiro, me abandonou grávida de três meses... E até hoje eu não sei o que foi feito dele...
A vida é assim mesmo, um dia de tristeza e outro feito com muita alegria. Quando o menino nasceu, fiquei desesperada; já eram três filhos para criar. Minha mãe foi logo dizendo: “Bota na creche, fia...” A minha vizinha, para a qual virei a cara depois , me disse um absurdo, me pediu que eu desse o menino pra ela. Filho meu não é bicho, não! Não dô para ninguém! Foi assim que a minha mãe me educou, é assim que eu ajo com as minhas crianças...
A minha quarta gravidez foi uma coisa tão boba que aconteceu, que a minha mãe sentiu mais pena de mim do que raiva. Veio morar na minha rua um pessoal que fazia trabalho para a empresa de telefonia; tudo quanto era pobre da região queria instalar telefone em casa. Era em torno de uns dez piões, casados e não casados, a maioria toda vinda do nordeste. E no meio deles havia um todo bonitinho, que logo se engraçou comigo. Ah! Sou filha de Deus, não resisti. O cara era diferente dos que eu conhecia no bairro e começamos a sair. Ele me levava todo final de semana a uma casa de forró, que havia na cidade vizinha da minha. Ele era todo safado, do tipo de homem que sabe enlouquecer direitinho uma mulher na cama. Esse enrosco durou uns seis meses, depois ele e os colegas foram embora para São Paulo e eu nunca mais o vi. Só que nisto, eu descobri que estava grávida e tinha esquecido de pegar o número do telefone dele. Eu estava esperando que ele me ligasse primeiro... Conclusão: tive a menina e ele nem sabe que é pai...
Meu Deus, eu estou aqui relembrando o passado e morrendo de medo da reação da minha mãe, quando ficar sabendo que estou gravida de novo, pela quinta vez.. E de um evangélico, que até quis me levar para a igreja. Tive um caso com ele há pouco tempo atrás. Achei, como sempre acho, que daria certo a minha relação amorosa. Mas que nada! Ao lhe falar da gravidez, disse que o filho não era dele , mas do diabo... estou tão cansada, nem sei o que será de mim, quando eu contar para a minha mãe. E o pior é que eu gosto do cafajeste, do jeito certinho dele... Bem, estou no portão e logo vou abrir a porta da casa da minha mãe e contarei toda a verdade a ela. Seja o que Deus quiser! Eu tenho certeza que Ele vai me amparar.
- Pô, mãe...! Eu estou grávida de novo, mas esse, pelo menos, vai registrar a criança...
Minha mãe olhou bem fundo dos meus olhos, virou as costas e disse, indo para o quarto dela.
- Ah, fia! Mais um...!? Se Deus dá, Deus cria...

DIOGO VEIGA

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TRABALHO EM TELHA


Jóse Bráulio desenvolveu uma técnica própria para pintura em telha, utilizando massa corrida e aquarela.
Delhalhe: ardósia foi usada em algumas telhas como calçamento...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CRÔNICA DE EDUCAÇÃO - PUBLICADA PELA REVISTA EDUCATIVA NO ANO DE 2009

UM MOMENTO DE... DESCONTROLE, NADA MAIS

A professora Bonita do Laço de Fita era a mais bem vestida, a mais educada, a mais criativa e a mais satisfeita em sua profissão. Professora Bonita do Laço de Fita adorava usar vestidos floridos e fazer tererê nos cabelos de suas alunas. Todos amavam essa professora.
Mas era final de ano letivo, as pessoas, nas escolas estavam irreconhecíveis. E naquela última semana, a de provas, a professora Bonita do Laço de Fita estava agitadíssima. Era só preenchimento de papéis e cobranças da diretora; elaboração de provas, reunião com os pais de alunos, entrega de relatórios de avaliação, enfim, estava tudo uma loucura. E aquela última quinta-feira seria inesquecível para ela.
Nesse dia, ela enfileirou as carteiras e entregou a provinha de Geografia para os alunos da 4ª série - Nossa! Como estava esgotada! - sentou-se à mesa e começou a olhar a caderneta. De vez em quando, uma tossinha seca, de cá, uma espichada de pescoço, de lá e ela advertia.
- Nada de colar do coleguinha; isso é feio!!!
Voltou a olhar a caderneta, quando o barulho de uma bola de chiclete estourando a desconcertou. Olhou, com o senho fechado para a menina desenxabida, que sentava-se no fundo da sala, pois sabia que era aquela atrevida a dona da arte. Encarou-a, mas, logo em seguida, deu de ombros e a ignorou.
Novamente, uma outra bola de chiclete estourou; então, ficou irritada..
- A dona do chiclete pode se levantar e joga-lo no lixo – ordenou.
A menina, como quem não queria nada, levantou-se e lentamente se aproximou do cesto de lixo e fingiu jogar fora a goma de mascar. Minutos depois, o mesmo som de estouro perturbou o silêncio da sala.
- Já não disse para você jogar esse chiclete fora?! – gritou a educada professora.
A menina sorriu para ela, falsamente. Levantou-se novamente, com a intenção de repetir a cena anterior. Arrastando no chão os chinelos carcomidos, aproximou-se da professora e disse:
- Pronto, “fessora”. Já joguei.
Voltou para a sua carteira e sentou-se. Cinco minutos depois, um barulho de gente mastigando chamou a atenção da bonita professora. Era, de novo, a abençoada menina, mascando aquele chiclete.
- Levante-se, já! E jogue essa porcaria de chiclete fora. Se você não jogar dessa vez, eu juro que colo ele na sua cabeça!
Olhinhos esbugalhados fitaram a delicada professora. E agora, o que vai acontecer? Suspense nos últimos trinta minutos de aula.... Será que a professora Bonita do Laço de Fita seria capaz de tamanha malvadeza?
A menina dissimulada levantou-se, mais uma vez e, numa moleza só, sorriu para a mulher, mostrando os dentinhos cariados.
- Pronto! Dessa vez, juro que joguei o chiclete fora – disse e voltou para o seu lugar rebolando exageradamente.
A garota não era de confiança e a professora, com os nervos à flor da pele, deixou de escrever na caderneta, só para ficar de olho nela. Cinco minutos depois, ela não ouviu o barulho, apenas viu a boca da menina mexendo, de um lado para o outro. Transida de raiva, levantou-se, foi até o fundo da sala e estendeu a mão para a menina.
- Jogue, aqui esse chiclete! – E bem alto para a classe – E ninguém olhe para trás.
Pálida como uma vela, a desobediente, dessa vez, obedeceu. Rapidamente, a professora Bonita do Laço de Fita, sem pensar, amassou aquela coisa gosmenta nos volumosos cabelos afros da aluna.
A consciência lhe voltou no exato momento em que ela puxou o chiclete e ele, ao invés de se soltar, embrenhou-se cabelos adentro. A mulher se desesperou e, sem muita habilidade nos dedos, tentou separar aquela pasta cor-de-rosa de entre as mechas empasteladas. Puxou os cabelos da menina.
- Ai, tia!!! “Ta” doendo!
- Ninguém olha para trás! – berrou a professora. E para a menina – Isso é pra você aprender a não ser desobediente. Teimosa!
Quanto mais ela puxava, mas a goma se espalhava pelos cabelos. Tinha que agir rápido, a aula já estava acabando. Mexeu no estojo da garota e viu a sua tesourinha. Não pensou duas vezes e cortou uma mecha grande de cabelos. Só assim conseguiu tirar aquele cor-de-rosa desmaiado, descombinado do resta da cabeleira.
- Pronto! E agradeça por não ter se espalhado muito; nem dá pra ver onde cortei. E cabelo cresce de novo. Agora você vai chegar a sua casa e vai contar tudo para a sua mãe. Ouviu bem?
A menina só balançou a cabeça, confirmando que ouvira.
Fim da aula, finalmente. A professora Bonita do Laço de Fita, arrasada, correu para o seu carro. Não sorriu para ninguém e nem deu carona. Foi direto para casa. Naquela noite, não dormiu direito, pensando no estrago que tinha feito. Poderia perder o emprego, por causa disso. Pior ainda: poderia apanhar da mãe da menina. Ou a menina passaria a odiá-la; e para o resto da vida.
No dia seguinte, foi a primeira a chegar na escola. Nervosa, espiou a rua; nenhuma movimentação estranha. As crianças começaram a chegar e, lá, virando a esquina, avistou a menina, que vinha sozinha e de cabelos presos. Quando ela se aproximou bastante, perguntou-lhe brava:
- Então, contou para a sua mãe?
- Contei, sim, tia.
- E o que foi que ela disse?
Aquele segundo, antes de ouvir a resposta, foi o mais longo de toda a sua vida.
Ela disse... Bem feito!
A menina entrou na escola e a única coisa que a professora Bonita do Laço de Fita conseguiu dizer foi:
- Uuufa!!!
DIOGO VEIGA
CRÔNICA DE EDUCAÇÃO

EBA! PIZZA!

Depois que a última criança guardou sua mochila na estante, a professora chamou os alunos para formar a costumeira rodinha de conversa de todos os dias. De pé, todos se deram as mãos e, logo em seguida, as soltaram; somente um e outro se mantiveram de mãos dadas. Um menininho bem raquítico lambeu os dedos gordinhos da coleguinha que estava do seu lado.
- Não faça isso! A mão dela não é um doce! – admoestou a professora, ajeitando os óculos novos, que lhe davam um ar jovial. Logo, por causa da falação das crianças, teve que altear a voz:
- Gente! Atenção! Vamos cantar uma musiquinha?!
Cantaram, não uma, porém, quatro cantigas de roda. Todos participaram alegremente, fizeram um rápido alongamento e, depois, sentaram-se no chão.
- Tiiia! A senhora não vai perguntar? – indagou dela uma menina com roupas bem coloridas, puxando-a pela calça e dando-lhe tapas da barriga.
Tentando segurar as mãos da criança, a educadora respondeu:
- Já vou! – e exigiu – Mas, antes, tudo mundo faz perninhas de índio.
Depois, prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo e indagou:
- O que vocês fizeram no final da semana? Quem vai contar primeiro para os outros?
A menina mais falante da sala gritou:
- Eu fui ao circo e tinha um homem falando no microfone. Tiiia! Eu comi pipoca.
A professora bateu palmas para impor ordem; todos queriam falar ao mesmo tempo.
- Olha, Tia! – começou um menino – Meu cachorro tomou banho, que ele tava cheio de carrapato. Eu matei tudo com o dedo.
A professora arregalou os olhos e tentou fingir surpresa e disfarçar o nojo que sentiu, imaginando os carrapatos esmagados.
E a conversa continuou
- Sabe, Tia, eu comi pizza.
Dessa vez , a professora se interessou mais e prestou atenção a uma aluninha de vestido puído, cabelos desgrenhados e uma enorme janela na boca.
- Nossa! Que gostoso! Você comeu pizza no restaurante?
Não. Comi lá em casa mesmo. Ela tava inteirinha e enrolada num plástico.
- E o que tinha na pizza? – a professora inclinou-se para a frente para ouvir melhor.
- Hum... tomate... queijo...
A menina lambia os beiços enquanto falava.
- Mas você foi ao supermercado com o seu pai para comprar a pizza? – perguntou, sorrindo, a inocente professora.
- Não. Ele achou... – respondeu a menina, devolvendo o sorriso.
Neste momento, a professora desfez o semblante alegre e encheu-se de curiosidade.
- Achooou? Mas onde ele achou?
A menina arreganhou bem a boca e feliz da vida por ter comido uma pizza gostosa, respondeu:
- No lixão, lá perto de casa.

DIOGO VEIGA