sexta-feira, 12 de março de 2010

Ó, DURA REALIDADE

A professora levou alguns minutos para organizar a fila dos alunos, no pátio da escola. Toda sexta-feira era sempre a mesma rotina: antes das aulas, havia o momento cívico, com direito a Hino Nacional e Hino da Cidade. E aquela criançada toda da 3ª série, meninos, de um lado, meninas, do outro; a maioria só mexendo as bocas, entediada, querendo mesmo era correr pelo pátio, atrás uns dos outros. Os mais salientes, a professora tirava da fila e encarava com olhar feio, antes de lhes dar uma bronca. Como se adiantasse alguma coisa; a algazarra, às vezes, era tamanha, que ela mal conseguia cantar, arrumando a fila, colocando os alunos em ordem.
Ah!. Mas aquela sexta-feira seria especial, diferente; algo extraordinário estava programado para acontecer. A escola receberia, pela manhã, a visita de um sargento de polícia, que iria passar, de sala em sala, para alertar os alunos sobre os perigos de ficarem zanzando pelas ruas do bairro, depois de pularem o muro da escola, para cabular aula. Seria uma conversa amistosa,sugestão da diretora.
A turminha da 3ª série entrou na sala de aula, após os torturantes e exaustivos vinte minutos no pátio. Sala abarrotada de crianças, falação pra todo o lado, barulho total. A professora abriu a caderneta e começou a chamada. Logo de cara, o número um não respondeu.
- O número um não veio hoje, “fessora” – gritou uma moreninha desenxabida. – A senhora não sabe que dia de sexta ele não vem?
Um outro, daqueles bem espelotiados, se intrometeu:
- É porque, amanhã, é dia da mãe dele visitar o pai dele na cadeia. Ela vai hoje pra casa da tia... prá ser a primeira da fila...
A professora se deu por satisfeita com a explicação e continuou a chamada, mas, antes mesmo de termina-la, já havia se alterado com dois outros alunos.
- Dá pra fazer silêncio??? – berrou a educadora.
O menorzinho dos dois gritou também:
- Ele que tá me irritando!
- Por causa de quê? – quis saber a mulher.
- É porque o meu pai ta preso!
O outro, que até então não tinha se manifestado, berrou com uma vozinha estridente:
- É “fessora”, eu já falei: o meu pai está mais preso que o dele!
A professora ignorou os dois, abaixando a cabeça; poderia tê-los questionado, mas não quis se envolver. Nesse momento, um tumulto lá fora, chamou a atenção de todos, que, ao mesmo tempo, espiaram pela janela.
- Tia! O ‘seu” Polícia chegou!!! – gritou uma menina de vestido amarelo.
A criançada toda ficou eufórica. O policial custava a entrar na sala e a professora não sabia mais o que fazer para controlar a bagunça. Finalmente o policial entrou, acompanhado da diretora. Um aluninho bem atrevido berrou:
- Ó, seu polícia! O senhor não se chama sargento Nogueira?
O homem sorriu e confirmou com a cabeça.
- Eu conheço o senhor – continuou o atrevido – O senhor já prendeu um montão de gente, né!?
A diretora e a professora fizeram cara de surpresa e se entreolharam. O menino continuou impávido:
- O senhor prendeu o Mane da Venda, a dona Alzira Camelô... Até o João Biruta o senhor já prendeu...
O policial se deu ares de importância e tomou a palavra:
- Pelo jeito, você me conhece bem, mesmo. Posso saber como sabe de tudo isso?
O menino estufou o peito e deu um sorriso radiante. Falou meio que rindo:
- É que o senhor prendeu o meu pai também!!!
DIOGO VEIGA

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