sexta-feira, 12 de março de 2010

O PULO DO GATO

É MESMO, MEU A-MOR!!! ENTÃO, AMANHÃ A GENTE SE VÊ... NAQUELE LUGARZINHO.
DESLIGUEI O TELEFONE E DEI UMA GARGALHADA. SEMPRE QUANDO ESTOU AGITADA, VOU FICANDO VERMELHA; ISSO É MAL DE GENTE MUITO BRANCA, MAS NÃO TEM IMPORTÂNCIA. O QUE IMPORTA É QUE ESTOU FELIZ E REVIVENDO O QUE ACONTECEU COMIGO, LÁ NO PASSADO: UM NAMORICO BOBO, QUE NÃO DEU CERTO, MAS QUE FICOU NA SAUDADE.
APRENDI QUE NA VIDA SÓ HÁ ESPAÇO PARA UMA COISA: “EU”. NÃO QUE EU SEJA MUITO ESGOÍSTA. É QUE JÁ LEVEI MUITO ESPORRA DA VIDA ME DEDICANDO AOS OUTROS. ÀS VEZES PENSO EM ALGUMAS PALAVRAS, COMO CASAMENTO, E JÁ CHEGUEI À CONCLUSÃO QUE NÃO AMO O MEU MARIDO; ESTOU COM ELE POR CONVENIÊNCIA. SEI QUE ELE FOI UM HOMEM MUITO COBIÇADO E, MESMO ÀS VESPERAS DE SE TORNAR UM CINQUENTÃO, AINDA EXIBE UMA BARRIGA DE TANQUINHO E UMA BUNDINHA DE DAR INVEJA. NUNCA NEGOU FOGO E AGUENTA, ALI, FIRME, ATÉ EU DIZER : CHEGA! DOU UMA CANSEIRA NELE. SE EU ME SEPARAR, TENHO CERTEZA QUE ELE SE QUEBRA. ELE JÁ SE ACOSTUMOU COM AS MINHAS BOBEIRAS, COMO ESCREVER À BATOM NO ESPELHO FRASE COMO: “HOJE EU ESTOU SEM CALCINHA, VEM! OU DE FILMAR AS NOSSAS RELAÇÕES OU MESMO PEGÁ-LO DE SURPRESA, SUBINDO NA ESCADA, COM INTENÇÃO DE TROCAR A LAMPADA, USANDO UMA SAIA CURTA E COM UMA TANQUINHA ENFIADA NO REGO.
É! É MESMO! ELE É UM GATO. UM GATO QUE FICA FEIO, QUANDO QUER SER MACHISTA, AO PONTO DE FALAR QUE SOU TÃO BURRA, MAS TÃO BURRA, QUE PARA EU TIRAR A MINHA HABILITAÇÃO, TERIA QUE TREPAR COM O INSTRUTOR. NO DIA EM QUE CHEGUEI À CASA COM O RESULTADO DA PROVA, FIZ AR DE TRISTEZA E, LOGO EM SEGUIDA, DEI UMA GARGALHADA E DISSE:
- SEU I-DI-O-TA EU PASSEI! E PASSEI NA PRIMEIRA.
ELE APENAS SORRIU, UM SORRISO DE DESPREZO.
SE É PRÁ FALAR DE QUALIDADES, TENHO VÁRIAS: FALO O QUE PENSO, RIO DE TUDO E NÃO ESQUEÇO AS COISAS BOAS QUE AS PESSOAS ME FAZEM. SOBRE DEFEITOS: TAMBÉM NÃO ME ESQUEÇO DAS COISAS RUINS QUE AS PESSOAS ME FAZEM; DOU O TROCO NA HORA CERTA. UMA COISA QUE NEM O MEU MARIDO E NEM NINGUÉM PODE NEGAR É QUE SOU CONQUISTADORA. QUEM SAIU DO MISERÊ EM QUE VIVIA, QUANDO CRIANÇA, E HOJE TEM UMA CASA PRÓPRIA, UM RÁDIO DA HORA, FOGÃO, GELADEIRA E SOFÁ QUITADOS, PODE SE SENTIR VITORIOSA.
A PALAVRA MUDANÇA ME DIZ MUITA COISA; PRECISARIA MUDAR ERA O MEU JEITO. NO MEU EMPREGO SOU AUTENTICA, CONVERSO DE TUDO E ME DIVIRTO MUITO; EM CASA, ACABO AGINDO FEITO BICHO DO MATO, SOU ESTRESSADA. LÁ NÓS BERRAMOS, XINGAMOS E IRONIZAMOS TUDO. AS FRASES MAIS COMUNS SÃO ESTAS: “ SUA PIRANHA” , SEGUIDA DE UMA RESPOSTA À QUEIMA ROUPA: “E VOCÊ É UM CORNO FELIZ”. NA PASSAGEM DO ANO CONSEGUI FERI-LO PROFUNDAMENTE. TOMEI UMAS CERVEJAS, RI E BERREI:
- NO PRÓXIMO ANO, NÃO QUERO FAZER PARTE DOS SEUS SONHOS; NÃO GOSTO MAIS DE VOCÊ.
AGORA, ELE QUER ME COMPRAR COM BEIJINHOS DOCES E FRASES MELOSAS COMO “EU GOSTO DE VOCÊ”. NOS OFENDEMOS ENTRE QUATRO PAREDES, MAS VIZINHO NENHUM DESCONFIOU DE NADA AINDA,.NO MEU BAIRRO, SOU CONHECIDA COMO A METIDA, QUE NÃO SE ENVOLVE COM NINGUÉM, MÃE DECENTE E ESPOSA FELIZ.
AGORA, O QUE VEM PESANDO NA MINHA CABEÇA É A PALAVRA TRAÍÇÃO. ESSA É FORTE E ACREDITO QUE ELA SE RESUME NO SEGUINTE DITADO: “ A OCASIÃO FAZ O LADRÃO”. JÁ FUI TRAÍDA, HUMILHADA E ABANDONADA PELO MEU MARIDO, MAS, NO FINAL, ACABEI ACEITANDO ELE DE VOLTA. NÃO PASSEI UMA BORRACHA NISSO TUDO, NÃO, ELE PERDEU ALGUNS PONTOS COMIGO. PORÉM, HOJE, DESSA VEZ, É DIFERENTE: EU ESTOU TRAINDO... NÃO TENHO CORAGEM DE JOGAR TUDO PARA O AR: CASA, MARIDO E FILHO, PORQUE NÃO SOU LOUCA. O “OUTRO” É PAI DE CINCO FILHOS, PAGA PENSÃO PARA TRÊS E TEM UMA MULHER QUE DIZ QUE RECEBE ESPIRITOS QUE LHE FALAM COISAS. ISSO É CHANTAGEM DE MULHER FERIDA, MAS O AZAR É DELA. ACHO QUE ESTOU TRAINDO PORQUE, NA VERDADE, QUERO ME SENTIR AMADA E OUVIR, PELO TELEFONE, AQUELAS FRASES DE GENTE APAIXONADA. AO MESMO TEMPO, TRAIR É UMA FORMA DE FERIR O MEU MARIDO, RIR DA CARA DELE E DEIXA-LO ACREDITAR QUE, QUANDO ESTAMOS TRANSANDO, ESTOU REALMENTE PENSANDO NELE.
JÁ ME ENCONTREI VÁRIAS VEZES COM O “OUTRO” E, POR INCRÍVEL QUE PAREÇA, SEXO ROLOU APENAS UMA VEZ. UMA “RAPIDINHA”, NO MEIO DA TARDE. O QUE ACONTECE MUITO, SÃO BEIJOS ROUBADOS E CONVERSA, MUITA CONVERSA. É, É MESMO. COM ELE ME SINTO UMA MENINA. TEMOS UM LUGARZINHO NO CENTRO DA CIDADE, NUMA RUA DE POUCO MOVIMENTO. FICO ESPERANDO POR ELE. É COISA RAPIDA: UM BEIJO MOLHADO E DEZ MINUTOS DE CONVERSA. E HOJE NÃO PODIA SER DIFERENTE. APENAS UMA VEZ, UMA COISA CHAMOU A NOSSA ATENÇÃO: UM CARRO VERMELHO PASSOU BUZINANDO PRÁ NÓS. ACHEI QUE MEU CORAÇÃO FOSSE PULAR PELA BOCA, MAS CONSEGUI ME ACALMAR E ACALMÁ-LO TAMBÉM. INFELIZMENTE, NÃO VIMOS QUEM ERA; ESTÁVAMOS TÃO DISTRAÍDOS NOS BEIJANDO...
OS DIAS FORAM PASSANDO, NOVOS ENCONTROS E O INCIDENTE VIROU APENAS UM BORRÃO VERMELHO EM NOSSA MEMÓRIA. NUM SÁBADO, DE MANHÃ, SAÍ COM O MEU MARIDO, PARA IR AO SUPERMERCADO. JÁ TINHAMOS BRIGADO LOGO CEDO E ELE JOGOU NA MINHA CARA QUE EU ESTAVA FAZENDO ALGUMA COISA ERRADA. QUE ELE JÁ ESTAVA DESCONFIADO. NEM DEI BOLA. PASSÁVAMOS PELO CORREDOR DOS ENLATADOS, QUANDO UMA PESSOA MEXEU COMIGO. ERA UMA CONHECIDA, CLIENTE LÁ DO SERVIÇO. NÓS NOS CUMPRIMENTAMOS E EU APRESENTEI PARA ELA O MEU MARIDO. E ELA FOI LOGO DIZENDO:
- ERA EU, AQUELE DIA, NO CARRO VERMELHO.
- QUE DIA? – A BURRA, AQUI, PERGUNTOU, NERVOSA.
- ACHO QUE VOCÊS NEM ME VIRAM, ESTAVAM TÃO DISTRAÍDOS.... – DEU UMA RISADINHA – HÁ! VOCÊ SABE... MAS, OLHA, TENHO QUE CONFESSAR: O SEU MARIDO É REALMENTE UM GATO.
O GATO ME FUZILOU COM OS OLHOS, LARGOU A MINHA MÃO E A ÚNICA COISA QUE FEZ FOI DAR UM PULINHO PARA TRAZ, VIRAR NOS CALCANHARES E SUMIR DAQUELE CORREDOR.

DIOGO VEIGA

Ó, DURA REALIDADE

A professora levou alguns minutos para organizar a fila dos alunos, no pátio da escola. Toda sexta-feira era sempre a mesma rotina: antes das aulas, havia o momento cívico, com direito a Hino Nacional e Hino da Cidade. E aquela criançada toda da 3ª série, meninos, de um lado, meninas, do outro; a maioria só mexendo as bocas, entediada, querendo mesmo era correr pelo pátio, atrás uns dos outros. Os mais salientes, a professora tirava da fila e encarava com olhar feio, antes de lhes dar uma bronca. Como se adiantasse alguma coisa; a algazarra, às vezes, era tamanha, que ela mal conseguia cantar, arrumando a fila, colocando os alunos em ordem.
Ah!. Mas aquela sexta-feira seria especial, diferente; algo extraordinário estava programado para acontecer. A escola receberia, pela manhã, a visita de um sargento de polícia, que iria passar, de sala em sala, para alertar os alunos sobre os perigos de ficarem zanzando pelas ruas do bairro, depois de pularem o muro da escola, para cabular aula. Seria uma conversa amistosa,sugestão da diretora.
A turminha da 3ª série entrou na sala de aula, após os torturantes e exaustivos vinte minutos no pátio. Sala abarrotada de crianças, falação pra todo o lado, barulho total. A professora abriu a caderneta e começou a chamada. Logo de cara, o número um não respondeu.
- O número um não veio hoje, “fessora” – gritou uma moreninha desenxabida. – A senhora não sabe que dia de sexta ele não vem?
Um outro, daqueles bem espelotiados, se intrometeu:
- É porque, amanhã, é dia da mãe dele visitar o pai dele na cadeia. Ela vai hoje pra casa da tia... prá ser a primeira da fila...
A professora se deu por satisfeita com a explicação e continuou a chamada, mas, antes mesmo de termina-la, já havia se alterado com dois outros alunos.
- Dá pra fazer silêncio??? – berrou a educadora.
O menorzinho dos dois gritou também:
- Ele que tá me irritando!
- Por causa de quê? – quis saber a mulher.
- É porque o meu pai ta preso!
O outro, que até então não tinha se manifestado, berrou com uma vozinha estridente:
- É “fessora”, eu já falei: o meu pai está mais preso que o dele!
A professora ignorou os dois, abaixando a cabeça; poderia tê-los questionado, mas não quis se envolver. Nesse momento, um tumulto lá fora, chamou a atenção de todos, que, ao mesmo tempo, espiaram pela janela.
- Tia! O ‘seu” Polícia chegou!!! – gritou uma menina de vestido amarelo.
A criançada toda ficou eufórica. O policial custava a entrar na sala e a professora não sabia mais o que fazer para controlar a bagunça. Finalmente o policial entrou, acompanhado da diretora. Um aluninho bem atrevido berrou:
- Ó, seu polícia! O senhor não se chama sargento Nogueira?
O homem sorriu e confirmou com a cabeça.
- Eu conheço o senhor – continuou o atrevido – O senhor já prendeu um montão de gente, né!?
A diretora e a professora fizeram cara de surpresa e se entreolharam. O menino continuou impávido:
- O senhor prendeu o Mane da Venda, a dona Alzira Camelô... Até o João Biruta o senhor já prendeu...
O policial se deu ares de importância e tomou a palavra:
- Pelo jeito, você me conhece bem, mesmo. Posso saber como sabe de tudo isso?
O menino estufou o peito e deu um sorriso radiante. Falou meio que rindo:
- É que o senhor prendeu o meu pai também!!!
DIOGO VEIGA

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

CRÔNICA SOBRE MULHER

O RESULTADO.

Droga! Era só isso que eu poderia dizer para as minhas burradas. Mil vezes droga! Agora com que cara eu vou chegar a casa da minha mãe e dizer, como quem não quer nada, que estou grávida mais uma vez... Não acredito que pude ser tão estupida. Meu Deus, eu tenho vinte e nove anos e ainda não aprendi a lidar com os homens. São todos uns crápulas, que vêm sempre com as mesmas histórias, querendo conhecer, pegar na mão, dar o primeiro beijo... falar que são “djs” e que querem enriquecer como cantores de “rap”... Convidam a gente para a primeira balada e depois nos levam pra cama... e ainda por cima não querem se preservar... e a burra aqui faz o que eles querem e depois engravida mais uma vez. Que loucura! Como eu vou contar isso para a minha mãe...? Ela vai me esfolar viva! Já estou até vendo a bronca e o sermão... Eu nunca pensei ser mãe de quatro filhos, morar nos fundos da casa da minha mãe, em dois cômodos, e viver da caridade dos outros. Eu sonhava em ser dançarina de rap, ficar famosa e sair do bairro pobre em que moro até hoje. Eu era conhecida por todos como a Super Girl, porque era a mais alta entre amigas, os meus peitos eram grandes, aos doze anos. Era forte também, eu era uma negona arretada como dizia o meu pai, batia em todas as meninas da escola que inventavam de arranjar confusão comigo ou com as minhas amigas. Eu sei que fui mãe muito cedo... aos treze anos... Ah! Minha mãe me teve aos quatorze e nem por isso ficou mal falada.
Eu lembro que, quando eu perdi a minha virgindade, foi com o carinha mais fofo da escola. Ele se gabava de usar o trinta e oito do pai, chegou até a levá-lo para a professora de matemática ver, só pra intimidar a coitada. Se sentia o maior valentão do pedaço, eu gostava dele, me passava segurança. Ele vivia de graça pro meu lado, fazia um chamego gostoso; não resisti, a tentação era grande. Foi na central da ferrovia mesmo que eu me deitei com ele, no chão duro, entre as bitucas de cigarros. O mês todo que fiquei com ele foi bom, mas quando mostrei a ele o resultado do exame de gravidez, que havia feito no posto de saúde perto de casa, e que tinha dado positivo, ele me chamou de cadela... Disse a mesma coisa que quase todos os carinhas falam: “Não é meu sua vadia...” É tão triste a filha da gente crescer perguntando pelo pai e a gente ter que mentir que ele morreu... No começo, eu bem que fiz isso, mas não aguentei; sou sincera, fui logo falando a verdade para ela. Filha minha precisa se acostumar com a realidade logo; minha mãe me ensinou dessa maneira e é assim que eu faço com os meus filhos. Ainda bem que eu tenho pai e eles podem chamá-lo também de pai; assim alivia a dor, a criança se sente menos rejeitada na vida...
Eu não faço corpo mole com a mais velha, não; a boto pra trabalhar mesmo, em casa. Não quero que ela tenha um futuro perdido, com os “neguinhos” do meu bairro...
Quando eu disse pra minha mãe que estava grávida pela segunda vez, olha que isso foi quase dez anos depois de ter a primeira, a minha mãe, pobrezinha, sorriu, pois acreditava que eu iria casar com o meu namorado de então. Fazia o quê? Uns cinco meses que a gente estava juntos? É lógico, que pro tipo de mulher que sou, não aguentei seguir o conselho do meu pai, em não me deitar logo de cara com o caboclo... Mas esse era diferente. Era carinhoso, se preocupava comigo e com a minha filha, ele era tão bom que até comprava lanche para menina, quando a gente saía da balada, de volta pra casa. A gente quis morar junto, mas não estava nada certo ainda. Fiz até uma tatuagem nas costas, em homegagem a ele, economizei todo o dinheirinho, de uma faxina que fazia na casa de uma ricaça, só pra fazer o bendito desenho. Foi um coração flexado, com uns pingos de sangue caindo do lado e dentro tinha o seu nome com a frase “vou te amar pra sempre!”. Meu, o cara ficou louco de amor por mim. Recebi no dia seguinte um buquê de flores; todo mundo da rua veio ver o rapaz da floricultura entregando o buquê. Sou tão boba que chorei na hora de emoção. Também, nunca tinha recebido flores de ninguém, não poderia adivinhar, que o danado fosse fazer uma coisa dessa comigo. Aposto que engravidei naquela noite; foi tão romântico e diferente de tudo que eu já tinha feito em toda a minha vida. Ele me levou para um motel, daqueles que tem a cama redonda e espelho no teto... Ele até pediu bebida pra nós, tomei uma bela cerveja geladinha, só pra molhar a garganta e fiz amor e não sexo, que nem atriz de novela; mandei o bichinho pro espaço. Eu ainda era a Super Girl. Ele dizia que me amava de verdade, que queria constituir uma família, me assumir como mulher dele. É, mas felicidade de preto dura pouco: quando fomos completar sete meses de namoro, ele foi preso por tráfico de drogas; a rua toda lotou, para vê-lo entrar no camburão da polícia. Faltava tão pouco para gente ir morar juntos... Mesmo preso, ele quis assumir a minha gravidez, mas eu não permiti. Minha mãe é cristã e me ensinou a ser cristã também; ela vive dizendo pra mim: “Fia, é melhor ser pobre com honra do que ricaço ordinário...” Sou devota de Nossa Senhora Aparecida, não podia ser conivente com o banditismo dele. Quando a criança nasceu eu não quis que ele registrasse a menina. Hoje eu me arrependo e muito, a pior coisa que tem é mostrar a certidão de nascimento do filho da gente para os outros e eles verem quase uma folha em branco...
Quando engravidei pela terceira vez, foi com o mesmo carinha, pai da minha primeira filha. Ele estava mais maduro, experiente, já não era aquele garoto que queria peitar todo mundo; estava mudado... Tinha ido morar no Rio de Janeiro, na casa de uma tia; voltou de lá todo transformado, veio me procurar num baile de forró, me pedindo desculpas, querendo que eu desse uma nova change a ele. Dessa vez assumiria a sua filha e a outra. E o que uma mulher carente não faz? Aceitei, é lógico. O filho da mãe era bonito, charmoso e ainda mais agora todo musculoso. Reatei o nomoro com ele e a gente ficou junto quase um ano. Ele começou a trabalhar como pedreiro e a por as coisas em casa. Nessa época, eu estava precisando mesmo, não podia me fazer de rogada... Quando lhe mostrei o resultado do exame de gravidez, ele demonstrou felicidade. Mas passado um mês, desapareceu sem deixar paradeiro, me abandonou grávida de três meses... E até hoje eu não sei o que foi feito dele...
A vida é assim mesmo, um dia de tristeza e outro feito com muita alegria. Quando o menino nasceu, fiquei desesperada; já eram três filhos para criar. Minha mãe foi logo dizendo: “Bota na creche, fia...” A minha vizinha, para a qual virei a cara depois , me disse um absurdo, me pediu que eu desse o menino pra ela. Filho meu não é bicho, não! Não dô para ninguém! Foi assim que a minha mãe me educou, é assim que eu ajo com as minhas crianças...
A minha quarta gravidez foi uma coisa tão boba que aconteceu, que a minha mãe sentiu mais pena de mim do que raiva. Veio morar na minha rua um pessoal que fazia trabalho para a empresa de telefonia; tudo quanto era pobre da região queria instalar telefone em casa. Era em torno de uns dez piões, casados e não casados, a maioria toda vinda do nordeste. E no meio deles havia um todo bonitinho, que logo se engraçou comigo. Ah! Sou filha de Deus, não resisti. O cara era diferente dos que eu conhecia no bairro e começamos a sair. Ele me levava todo final de semana a uma casa de forró, que havia na cidade vizinha da minha. Ele era todo safado, do tipo de homem que sabe enlouquecer direitinho uma mulher na cama. Esse enrosco durou uns seis meses, depois ele e os colegas foram embora para São Paulo e eu nunca mais o vi. Só que nisto, eu descobri que estava grávida e tinha esquecido de pegar o número do telefone dele. Eu estava esperando que ele me ligasse primeiro... Conclusão: tive a menina e ele nem sabe que é pai...
Meu Deus, eu estou aqui relembrando o passado e morrendo de medo da reação da minha mãe, quando ficar sabendo que estou gravida de novo, pela quinta vez.. E de um evangélico, que até quis me levar para a igreja. Tive um caso com ele há pouco tempo atrás. Achei, como sempre acho, que daria certo a minha relação amorosa. Mas que nada! Ao lhe falar da gravidez, disse que o filho não era dele , mas do diabo... estou tão cansada, nem sei o que será de mim, quando eu contar para a minha mãe. E o pior é que eu gosto do cafajeste, do jeito certinho dele... Bem, estou no portão e logo vou abrir a porta da casa da minha mãe e contarei toda a verdade a ela. Seja o que Deus quiser! Eu tenho certeza que Ele vai me amparar.
- Pô, mãe...! Eu estou grávida de novo, mas esse, pelo menos, vai registrar a criança...
Minha mãe olhou bem fundo dos meus olhos, virou as costas e disse, indo para o quarto dela.
- Ah, fia! Mais um...!? Se Deus dá, Deus cria...

DIOGO VEIGA

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

TRABALHO EM TELHA


Jóse Bráulio desenvolveu uma técnica própria para pintura em telha, utilizando massa corrida e aquarela.
Delhalhe: ardósia foi usada em algumas telhas como calçamento...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CRÔNICA DE EDUCAÇÃO - PUBLICADA PELA REVISTA EDUCATIVA NO ANO DE 2009

UM MOMENTO DE... DESCONTROLE, NADA MAIS

A professora Bonita do Laço de Fita era a mais bem vestida, a mais educada, a mais criativa e a mais satisfeita em sua profissão. Professora Bonita do Laço de Fita adorava usar vestidos floridos e fazer tererê nos cabelos de suas alunas. Todos amavam essa professora.
Mas era final de ano letivo, as pessoas, nas escolas estavam irreconhecíveis. E naquela última semana, a de provas, a professora Bonita do Laço de Fita estava agitadíssima. Era só preenchimento de papéis e cobranças da diretora; elaboração de provas, reunião com os pais de alunos, entrega de relatórios de avaliação, enfim, estava tudo uma loucura. E aquela última quinta-feira seria inesquecível para ela.
Nesse dia, ela enfileirou as carteiras e entregou a provinha de Geografia para os alunos da 4ª série - Nossa! Como estava esgotada! - sentou-se à mesa e começou a olhar a caderneta. De vez em quando, uma tossinha seca, de cá, uma espichada de pescoço, de lá e ela advertia.
- Nada de colar do coleguinha; isso é feio!!!
Voltou a olhar a caderneta, quando o barulho de uma bola de chiclete estourando a desconcertou. Olhou, com o senho fechado para a menina desenxabida, que sentava-se no fundo da sala, pois sabia que era aquela atrevida a dona da arte. Encarou-a, mas, logo em seguida, deu de ombros e a ignorou.
Novamente, uma outra bola de chiclete estourou; então, ficou irritada..
- A dona do chiclete pode se levantar e joga-lo no lixo – ordenou.
A menina, como quem não queria nada, levantou-se e lentamente se aproximou do cesto de lixo e fingiu jogar fora a goma de mascar. Minutos depois, o mesmo som de estouro perturbou o silêncio da sala.
- Já não disse para você jogar esse chiclete fora?! – gritou a educada professora.
A menina sorriu para ela, falsamente. Levantou-se novamente, com a intenção de repetir a cena anterior. Arrastando no chão os chinelos carcomidos, aproximou-se da professora e disse:
- Pronto, “fessora”. Já joguei.
Voltou para a sua carteira e sentou-se. Cinco minutos depois, um barulho de gente mastigando chamou a atenção da bonita professora. Era, de novo, a abençoada menina, mascando aquele chiclete.
- Levante-se, já! E jogue essa porcaria de chiclete fora. Se você não jogar dessa vez, eu juro que colo ele na sua cabeça!
Olhinhos esbugalhados fitaram a delicada professora. E agora, o que vai acontecer? Suspense nos últimos trinta minutos de aula.... Será que a professora Bonita do Laço de Fita seria capaz de tamanha malvadeza?
A menina dissimulada levantou-se, mais uma vez e, numa moleza só, sorriu para a mulher, mostrando os dentinhos cariados.
- Pronto! Dessa vez, juro que joguei o chiclete fora – disse e voltou para o seu lugar rebolando exageradamente.
A garota não era de confiança e a professora, com os nervos à flor da pele, deixou de escrever na caderneta, só para ficar de olho nela. Cinco minutos depois, ela não ouviu o barulho, apenas viu a boca da menina mexendo, de um lado para o outro. Transida de raiva, levantou-se, foi até o fundo da sala e estendeu a mão para a menina.
- Jogue, aqui esse chiclete! – E bem alto para a classe – E ninguém olhe para trás.
Pálida como uma vela, a desobediente, dessa vez, obedeceu. Rapidamente, a professora Bonita do Laço de Fita, sem pensar, amassou aquela coisa gosmenta nos volumosos cabelos afros da aluna.
A consciência lhe voltou no exato momento em que ela puxou o chiclete e ele, ao invés de se soltar, embrenhou-se cabelos adentro. A mulher se desesperou e, sem muita habilidade nos dedos, tentou separar aquela pasta cor-de-rosa de entre as mechas empasteladas. Puxou os cabelos da menina.
- Ai, tia!!! “Ta” doendo!
- Ninguém olha para trás! – berrou a professora. E para a menina – Isso é pra você aprender a não ser desobediente. Teimosa!
Quanto mais ela puxava, mas a goma se espalhava pelos cabelos. Tinha que agir rápido, a aula já estava acabando. Mexeu no estojo da garota e viu a sua tesourinha. Não pensou duas vezes e cortou uma mecha grande de cabelos. Só assim conseguiu tirar aquele cor-de-rosa desmaiado, descombinado do resta da cabeleira.
- Pronto! E agradeça por não ter se espalhado muito; nem dá pra ver onde cortei. E cabelo cresce de novo. Agora você vai chegar a sua casa e vai contar tudo para a sua mãe. Ouviu bem?
A menina só balançou a cabeça, confirmando que ouvira.
Fim da aula, finalmente. A professora Bonita do Laço de Fita, arrasada, correu para o seu carro. Não sorriu para ninguém e nem deu carona. Foi direto para casa. Naquela noite, não dormiu direito, pensando no estrago que tinha feito. Poderia perder o emprego, por causa disso. Pior ainda: poderia apanhar da mãe da menina. Ou a menina passaria a odiá-la; e para o resto da vida.
No dia seguinte, foi a primeira a chegar na escola. Nervosa, espiou a rua; nenhuma movimentação estranha. As crianças começaram a chegar e, lá, virando a esquina, avistou a menina, que vinha sozinha e de cabelos presos. Quando ela se aproximou bastante, perguntou-lhe brava:
- Então, contou para a sua mãe?
- Contei, sim, tia.
- E o que foi que ela disse?
Aquele segundo, antes de ouvir a resposta, foi o mais longo de toda a sua vida.
Ela disse... Bem feito!
A menina entrou na escola e a única coisa que a professora Bonita do Laço de Fita conseguiu dizer foi:
- Uuufa!!!
DIOGO VEIGA
CRÔNICA DE EDUCAÇÃO

EBA! PIZZA!

Depois que a última criança guardou sua mochila na estante, a professora chamou os alunos para formar a costumeira rodinha de conversa de todos os dias. De pé, todos se deram as mãos e, logo em seguida, as soltaram; somente um e outro se mantiveram de mãos dadas. Um menininho bem raquítico lambeu os dedos gordinhos da coleguinha que estava do seu lado.
- Não faça isso! A mão dela não é um doce! – admoestou a professora, ajeitando os óculos novos, que lhe davam um ar jovial. Logo, por causa da falação das crianças, teve que altear a voz:
- Gente! Atenção! Vamos cantar uma musiquinha?!
Cantaram, não uma, porém, quatro cantigas de roda. Todos participaram alegremente, fizeram um rápido alongamento e, depois, sentaram-se no chão.
- Tiiia! A senhora não vai perguntar? – indagou dela uma menina com roupas bem coloridas, puxando-a pela calça e dando-lhe tapas da barriga.
Tentando segurar as mãos da criança, a educadora respondeu:
- Já vou! – e exigiu – Mas, antes, tudo mundo faz perninhas de índio.
Depois, prendeu os cabelos num rabo-de-cavalo e indagou:
- O que vocês fizeram no final da semana? Quem vai contar primeiro para os outros?
A menina mais falante da sala gritou:
- Eu fui ao circo e tinha um homem falando no microfone. Tiiia! Eu comi pipoca.
A professora bateu palmas para impor ordem; todos queriam falar ao mesmo tempo.
- Olha, Tia! – começou um menino – Meu cachorro tomou banho, que ele tava cheio de carrapato. Eu matei tudo com o dedo.
A professora arregalou os olhos e tentou fingir surpresa e disfarçar o nojo que sentiu, imaginando os carrapatos esmagados.
E a conversa continuou
- Sabe, Tia, eu comi pizza.
Dessa vez , a professora se interessou mais e prestou atenção a uma aluninha de vestido puído, cabelos desgrenhados e uma enorme janela na boca.
- Nossa! Que gostoso! Você comeu pizza no restaurante?
Não. Comi lá em casa mesmo. Ela tava inteirinha e enrolada num plástico.
- E o que tinha na pizza? – a professora inclinou-se para a frente para ouvir melhor.
- Hum... tomate... queijo...
A menina lambia os beiços enquanto falava.
- Mas você foi ao supermercado com o seu pai para comprar a pizza? – perguntou, sorrindo, a inocente professora.
- Não. Ele achou... – respondeu a menina, devolvendo o sorriso.
Neste momento, a professora desfez o semblante alegre e encheu-se de curiosidade.
- Achooou? Mas onde ele achou?
A menina arreganhou bem a boca e feliz da vida por ter comido uma pizza gostosa, respondeu:
- No lixão, lá perto de casa.

DIOGO VEIGA