sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

CRÔNICA DE EDUCAÇÃO - PUBLICADA PELA REVISTA EDUCATIVA NO ANO DE 2009

UM MOMENTO DE... DESCONTROLE, NADA MAIS

A professora Bonita do Laço de Fita era a mais bem vestida, a mais educada, a mais criativa e a mais satisfeita em sua profissão. Professora Bonita do Laço de Fita adorava usar vestidos floridos e fazer tererê nos cabelos de suas alunas. Todos amavam essa professora.
Mas era final de ano letivo, as pessoas, nas escolas estavam irreconhecíveis. E naquela última semana, a de provas, a professora Bonita do Laço de Fita estava agitadíssima. Era só preenchimento de papéis e cobranças da diretora; elaboração de provas, reunião com os pais de alunos, entrega de relatórios de avaliação, enfim, estava tudo uma loucura. E aquela última quinta-feira seria inesquecível para ela.
Nesse dia, ela enfileirou as carteiras e entregou a provinha de Geografia para os alunos da 4ª série - Nossa! Como estava esgotada! - sentou-se à mesa e começou a olhar a caderneta. De vez em quando, uma tossinha seca, de cá, uma espichada de pescoço, de lá e ela advertia.
- Nada de colar do coleguinha; isso é feio!!!
Voltou a olhar a caderneta, quando o barulho de uma bola de chiclete estourando a desconcertou. Olhou, com o senho fechado para a menina desenxabida, que sentava-se no fundo da sala, pois sabia que era aquela atrevida a dona da arte. Encarou-a, mas, logo em seguida, deu de ombros e a ignorou.
Novamente, uma outra bola de chiclete estourou; então, ficou irritada..
- A dona do chiclete pode se levantar e joga-lo no lixo – ordenou.
A menina, como quem não queria nada, levantou-se e lentamente se aproximou do cesto de lixo e fingiu jogar fora a goma de mascar. Minutos depois, o mesmo som de estouro perturbou o silêncio da sala.
- Já não disse para você jogar esse chiclete fora?! – gritou a educada professora.
A menina sorriu para ela, falsamente. Levantou-se novamente, com a intenção de repetir a cena anterior. Arrastando no chão os chinelos carcomidos, aproximou-se da professora e disse:
- Pronto, “fessora”. Já joguei.
Voltou para a sua carteira e sentou-se. Cinco minutos depois, um barulho de gente mastigando chamou a atenção da bonita professora. Era, de novo, a abençoada menina, mascando aquele chiclete.
- Levante-se, já! E jogue essa porcaria de chiclete fora. Se você não jogar dessa vez, eu juro que colo ele na sua cabeça!
Olhinhos esbugalhados fitaram a delicada professora. E agora, o que vai acontecer? Suspense nos últimos trinta minutos de aula.... Será que a professora Bonita do Laço de Fita seria capaz de tamanha malvadeza?
A menina dissimulada levantou-se, mais uma vez e, numa moleza só, sorriu para a mulher, mostrando os dentinhos cariados.
- Pronto! Dessa vez, juro que joguei o chiclete fora – disse e voltou para o seu lugar rebolando exageradamente.
A garota não era de confiança e a professora, com os nervos à flor da pele, deixou de escrever na caderneta, só para ficar de olho nela. Cinco minutos depois, ela não ouviu o barulho, apenas viu a boca da menina mexendo, de um lado para o outro. Transida de raiva, levantou-se, foi até o fundo da sala e estendeu a mão para a menina.
- Jogue, aqui esse chiclete! – E bem alto para a classe – E ninguém olhe para trás.
Pálida como uma vela, a desobediente, dessa vez, obedeceu. Rapidamente, a professora Bonita do Laço de Fita, sem pensar, amassou aquela coisa gosmenta nos volumosos cabelos afros da aluna.
A consciência lhe voltou no exato momento em que ela puxou o chiclete e ele, ao invés de se soltar, embrenhou-se cabelos adentro. A mulher se desesperou e, sem muita habilidade nos dedos, tentou separar aquela pasta cor-de-rosa de entre as mechas empasteladas. Puxou os cabelos da menina.
- Ai, tia!!! “Ta” doendo!
- Ninguém olha para trás! – berrou a professora. E para a menina – Isso é pra você aprender a não ser desobediente. Teimosa!
Quanto mais ela puxava, mas a goma se espalhava pelos cabelos. Tinha que agir rápido, a aula já estava acabando. Mexeu no estojo da garota e viu a sua tesourinha. Não pensou duas vezes e cortou uma mecha grande de cabelos. Só assim conseguiu tirar aquele cor-de-rosa desmaiado, descombinado do resta da cabeleira.
- Pronto! E agradeça por não ter se espalhado muito; nem dá pra ver onde cortei. E cabelo cresce de novo. Agora você vai chegar a sua casa e vai contar tudo para a sua mãe. Ouviu bem?
A menina só balançou a cabeça, confirmando que ouvira.
Fim da aula, finalmente. A professora Bonita do Laço de Fita, arrasada, correu para o seu carro. Não sorriu para ninguém e nem deu carona. Foi direto para casa. Naquela noite, não dormiu direito, pensando no estrago que tinha feito. Poderia perder o emprego, por causa disso. Pior ainda: poderia apanhar da mãe da menina. Ou a menina passaria a odiá-la; e para o resto da vida.
No dia seguinte, foi a primeira a chegar na escola. Nervosa, espiou a rua; nenhuma movimentação estranha. As crianças começaram a chegar e, lá, virando a esquina, avistou a menina, que vinha sozinha e de cabelos presos. Quando ela se aproximou bastante, perguntou-lhe brava:
- Então, contou para a sua mãe?
- Contei, sim, tia.
- E o que foi que ela disse?
Aquele segundo, antes de ouvir a resposta, foi o mais longo de toda a sua vida.
Ela disse... Bem feito!
A menina entrou na escola e a única coisa que a professora Bonita do Laço de Fita conseguiu dizer foi:
- Uuufa!!!
DIOGO VEIGA

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